O que deveria ser um domingo de luto e memória pelos sete anos da tragédia de Brumadinho transformou-se em um dia de pânico para os moradores de Congonhas e Ouro Preto. Na madrugada deste domingo, 25 de janeiro, o extravasamento de uma estrutura da Mina de Fábrica, operada pela Vale, despejou cerca de 220 mil m³ de água e sedimentos sobre as instalações da mineradora vizinha, a CSN, e atingiu cursos d’água da região.

O incidente e o “silêncio” da mineradora
Relatos e vídeos que circularam nas redes sociais desde as primeiras horas da manhã mostravam uma forte enxurrada de lama invadindo escritórios e oficinas da CSN, com o nível dos rejeitos chegando a 1,5 metro de altura. Apesar do cenário alarmante e da mobilização da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros ainda cedo, a Vale só se manifestou oficialmente no final da tarde.
Em nota, a mineradora negou o rompimento de barragens, classificando o episódio como um “extravasamento de água com sedimentos de uma cava” (uma escavação a céu aberto). Segundo a empresa, o fluxo não atingiu comunidades próximas, mas as causas ainda estão sob apuração.
Fantasmas de Mariana e Brumadinho
A falta de informações imediatas pela Vale e autoridades responsáveis do ocorrido, exatamente no aniversário do colapso da barragem da Mina Córrego do Feijão, elevaram a tensão a níveis críticos. Para o povo mineiro, a distinção técnica entre “cava” e “barragem” pouco importa diante da imagem de lama avançando sobre construções, sobretudo para quem acompanhou as tragédias de de Mariana (5 de Novembro de 2015): 19 mortos e a destruição total do Rio Doce e de Brumadinho (25 de Janeiro de 2019): 272 vidas perdidas e um rastro de lama que até hoje impede a vida no Rio Paraopeba.
Embora a Vale tenha tentado minimizar o ocorrido, autoridades já identificaram turbidez no Córrego Goiabeiras, que abastece o Rio Maranhão em Congonhas, é o primeiro sinal de um impacto ambiental que moradores temiam nunca mais ver.
A demora na comunicação da Vale é o ponto central da revolta local. Em uma região marcada por traumas profundos, o atraso em esclarecer o que de fato aconteceu alimenta o medo e a desconfiança. Embora o Governo de Minas e a Defesa Civil tenham garantido que a situação está sendo monitorada, a sensação para quem vive à sombra das mineradoras é a de que a história insiste em se repetir.
Embora a Vale afirme que o incidente não envolveu “barragens de rejeitos”, o impacto ambiental na calha dos rios é imediato e guarda semelhanças com o início das crises de Mariana e Brumadinho, especialmente pela incerteza sobre a composição química desses sedimentos.
Danos ambientais comprovados
De acordo com as vistorias realizadas pela Defesa Civil de Minas Gerais, pela SEMAD (Secretaria de Meio Ambiente) e pelo IGAM (Instituto Mineiro de Gestão das Águas) neste domingo, os danos ambientais confirmados até o momento são significativos:
Resumo dos Impactos Ambientais
- Contaminação de Cursos D’água: O extravasamento atingiu o Córrego Goiabeiras, que é um afluente direto do Rio Maranhão. Foi detectada uma alteração drástica na turbidez da água (presença de lama e sedimentos).
- Volume de Rejeitos: Estimativas iniciais apontam que cerca de 220 mil m³ de água e sedimentos saíram da cava. Para dimensão, esse volume é suficiente para encher dezenas de piscinas olímpicas com lama.
- Assoreamento: O acúmulo de sedimentos no leito dos córregos locais prejudica a fauna aquática e pode comprometer o fluxo natural da água, aumentando riscos de transbordamentos futuros em caso de chuvas.
- Abastecimento Público: O Rio Maranhão é fundamental para a região de Congonhas. As autoridades monitoram o nível de metais e resíduos para decidir se a captação de água para a população precisará ser interrompida.
- Danos à Flora: A “onda” de água e sedimentos percorreu o terreno entre a mina de Fábrica e as instalações da CSN, soterrando a vegetação rasteira e áreas de preservação permanente (APP) nas margens dos corpos hídricos.


